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Marcela não consegue dirigir nervosa

juliannaisabele

Não dava para ver o vermelho do sinal, o ônibus na frente de Marcela tapava a luz estrategicamente. O olhar fixo no anúncio amarelo falando sobre uma nova escolinha no bairro fez a visão ficar turva, embaçada.

O coletivo mexeu, Marcela lembrou que precisava chegar logo, de uma vez por todas. Segurou o pé, com força, até o final do pedal, soltou devagarinho e esperou ver o capô subindo. Não subiu.

Um dos piores momentos da vida de um adolescente (dos responsáveis, ao menos) é tentar entender como funciona “sentir” um carro na hora de soltar o freio de mão em uma subida, acelerando, sem deixar descer, sem deixar morrer.

A vontade era de sair do carro e comprar uma passagem só de ida para algum lugar como o Vietnã, a Nova Zelândia ou o Jaçanã, que tem uma avenida parecida com aquelas de praias, o bairro todo quase não tem prédio nenhum e é um tanto plano.

Marcela tinha um compromisso, no entanto, e o jeito foi lidar com virar a chave o mais rápido possível e tentar outra vez, com o pé tremendo e ouvindo o som nervoso da buzina rasgando o ar e fazendo os ossos congelarem.

O celular vibrou, o pé subiu no pedal por falta de força e excesso de nervosismo, vibrou a segunda vez, a mão fez como quando o pé pisa em falso no degrau e não alcançou o freio de mão, vibrou a terceira vez, o rosto ficou gelado por dentro e quente por fora, vibrou a quarta vez, o carro caiu, vibrou a quinta vez, Marcela chorou.

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juliannaisabele

Estou triste porque quanto mais tempo passa mais meu pai está longe de mim e vou fazer aniversário pela primeira vez sem ganhar o abraço dele de manhã ou de madrugada, como nos anos em que eu não precisava dormir cedo pra estudar ou trabalhar. Não quero que o tempo passe, não quero que aumente a distância.

G
juliannaisabele

I want your Monday morning
sleep soaked eyes
dream drenched voice,
lazy bones
‘five more minutes please babe.’

I want your Tuesday afternoon
coffee break,
glasses off, laughter on
‘just hold me for a while
it’s been a hard day.’

I want your Wednesday evening
fingers through hair
teeth nibbling nails
neck craning, eye glazing
‘this paperwork never ends’

I want your Thursday night
drinks for two
bones unbind
muscles let loose
flats, slacks,
‘just me and you’

I want your finally Friday
stretch soul smile,
sun sipping light
from the glaciers in your eyes
fingers unfurl, hand extends
‘c’mon babe, lets go wild’

I want your weekend.
your movie marathon Saturday
reading by the fireplace
kissing in the blankets
want your Sunday morning
orange juice and pancakes
white sheets, tender skin
hair like the Fourth of July
‘let’s not get out of bed today.’

I want your ordinary
and your stress, rest, release
I want your bad day and that terrible night
I want you drunk in my arms
forgetting the place but never my name
I want your lazy and your lonely
and your fist full of fight
I want you everyday
in every way
for the rest of my life. 

G

Marcela e o velhinho

juliannaisabele

Celina não parava de falar sobre como o misto de rosa com dourado seria um resgate rococó, passando longe de parecer brega ou decadente. Marcela, na outra ponta da linha, não podia desligar o telefone mesmo com a exaustão causada pela conversa  — Celina era uma das últimas clientes.

A senhora de idade seguia falando sobre rendas e espelhos, sobre um quadro de uma garotinha de vestido rosa em um balanço que escondia segredos românticos e infiéis, falava sobre recriar a aura da tal obra de arte usando truques de luz para esconder imperfeições no gesso do teto rebaixado. Era quase um sacrilégio pensar de forma mesquinha em tempos de necessidade, mas Marcela sempre se perguntava qual era o ponto exato do cérebro de Celina em que os neurônios começam a se misturar da forma errada, nutrindo o restante das conexões com pequenas alucinações.

A verba disponibilizada esporadicamente para as grandiosas mudanças de ambiente da sala de estar do sobrado de Celina chegavam, no máximo, aos R$ 400. No geral, comprar uma moldura nova — reta, fina, gordinha, moderna, antiquada, rebuscada, simples — , um tapete usado — escuro, claro, felpudo, simples, desenhado, persa — e modificar o local original dos móveis já era o bastante. Dependia do humor da cliente.

Junto de outro punhado de figurões exóticos, como a rentável viúva de 23 anos que insistia em trocar o feng-shui da suíte principal todos os meses e o dentista com TOC (esculturas douradas nas temporadas de calor e peças de prata nas temporadas de frio, sem nunca repetir e sem saber que Marcela acabava achando que o gato em forma abstrata poderia fazer uma aparição ano sim ano não, já que ele era tão fofinho), Celina representava um nó com a realidade.

Se Marcela não pudesse mais trabalhar em seu pequeno e minimalista escritório, ela se descolaria da vida tal como um adesivo. Não seria de modo carinhoso, com água, sabão, esforço e um tanto de reflexão pelo passado. Seria com solvente: tomando cuidado para não respingar em mais ninguém e chegando ao fim tão rápido quanto o processo de colagem.

O mar da solidão conseguia ligar as duas de forma estranha: a família de sua mais antiga e menos estimada cliente era inexistente, Celina era uma náufraga, e Marcela tinha uma extensa lista de parentes e amigos, mas se sentia tão isolada quanto um beta preso dentro de um saquinho plástico.

De alguma forma, havia um certo senso moral em ouvir todo o discurso da insone senhora de 78 anos sobre ciclos artísticos. Era como se, ao menos durante os 40 minutos da conversa, o pequeno local de trabalho com piso de jatobá e parede de tijolo aparente parecesse ainda maior. Na luz do dia, quando o telefone não toca e os livros de referência se transformam em GIFs de gatinhos, o ambiente soa esmagador.

Por alguns instantes, Marcela se via na pele dos exaustos trabalhadores, tendo que atender uma exigente cliente no meio da noite. Seu business se mostrava frutífero: era preciso fazer um grande brainstorm, retirar as pastas com várias amostras diferentes de tecidos do armário e, sendo assim, seria necessário pegar a escadinha para alcançá-las. Ao menos por um tempinho, olha só, era como se tudo estivesse nos trilhos e o saquinho plástico no qual vivia se transformava em um vasto oceano.

Celina desligou, deixou uma visitinha marcada para a semana que vem, com chá, bolo de fubá e cafezinho. Marcela lembrou do que sua mãe havia dito quando o escritório foi inaugurado há 8 anos. A terceira gaveta da mesa servia de casa para uma garrafa de Jim Beam e um único copo de vidro, sempre lavado na pia do banheiro. Não havia o que ser guardado nos outros cinco gaveteiros e não haviam olhos para investigar o nada que neles era escondido.

Ainda assim, a terceira gaveta, a única com tranca, era o refúgio para quando a mãe de Marcela repetia, dentro da cabeça da filha, que ela não tinha apreço ou empenho pela própria família. Uma verdade horrorosa ainda é uma verdade, mesmo quando acompanhada de uísque sem gelo e um tanto de concentração na namoradeira antiga de Celina. Pátina funcionaria, talvez?

Era hora de voltar para casa. Depois de três copos e rabiscos muito mais agressivos do que a leveza do rococó exigia, já era mais tarde que o esperado. As ruas vazias e a caminhada solitária faziam o caminho de volta para o apartamento ser imponente — compartilhado somente pelos mutualmente esforçados. Muito trabalho, pensavam. A vida segue até ficar boa.

Marcela levantou da cadeira com seu senso alcoolizado de dever cumprido e começou seu ritual: checou mais uma vez a caixa de email e deixou a promoção de sapatos marcada como não lida, desligou o computador, pegou suas chaves na tigela ao lado do cabideiro, se enrolou no cachecol, colocou seu grosso casaco. Era um teatro, parecia que havia uma pressa necessária para chegar a algum lugar importante. Saiu pela porta com passos decisivos e cansaço nos olhos. Os desenhos espalhados na mesa e o copo de uísque ao lado dos papéis ficaram sozinhos no escuro, ecoando o que Marcela desejava para todos os seus dias: trabalho o bastante para sentir os ossos sendo esmagados, até esquecer das verdades horrorosas.

*

Caminhou tentando retirar bruscamente a esperança de seu coração, tentou separar o esperar do romantismo, se sentiu tirando espinha de um peixe usando óculos de visão noturna durante a tentativa.

De sobrancelha franzida e com os olhos fixos nos próprios pés, Marcela sentiu alguém trombando em seu ombro e a alça de sua bolsa deslizando, levando os pequenos pertences para o chão pós-molhado de chuva.

O cartão de ônibus colado com fita isolante, a identidade velha e com plástico sujo, o fone de ouvido enroladinho, o celular virado para baixo, cinco reais amassados e cinquenta centavos sujos, uma garrafinha de água velha. Marcela viu a mão do velhinho que havia esbarrado nela juntando tudo de uma vez e só conseguia pensar se água envelhecia.

O sujeito entregou o inventário minúsculo e pessoal, foi prestativo, educado, sorriu e seguiu pedindo desculpas, comentando ora sobre a falta de atenção causada pelos remédios, ora sobre parentes ainda mais idosos do que ele. Não fez contato visual, ainda que Marcela continuasse como uma estátua, com o ombro inclinado para o local em que havia sentido o golpe, olhos fixos no chão — na nuca do senhorzinho. Ele foi indo embora enquanto terminava o discurso do jeito que os idosos adoram fazer: falando sozinho.

Marcela ficou parada segurando a bolsa e percebeu a falta do celular só quando já seria esquisito demais sair correndo para chamar um velho de ladrão. O coração afundou no peito tão rápido quanto o desespero se esvaiu: entrou em pânico pelos contatos que perdeu, ficou chateada por lembrar que não havia nenhum número importante na agenda. O choro veio na garganta e deixou o rosto quente com a memória de conversas confortáveis, mas a última tinha sido há um ano, com um ex-namorado, e o certo, na verdade, seria apagar todo o histórico de uma vez só.

Um elefante sentou no peito de Marcela enquanto ela ponderava voltar para casa ou continuar estática no meio da rua, o frio perfurando a pele com minúsculas faquinhas feitas de vento.

Decidiu voltar para seu apartamento devagarinho, com as bochechas queimando as lágrimas que já secavam. Ouviu uma voz grossa, uma voz de quem fumou cigarros demais e pediu desculpas de menos: “Credo, quanto desespero… Não precisa de tudo isso, toma de volta”.

G
juliannaisabele

Era tão fácil escrever sobre a gente. Assim que te conheci, assim que senti o céu da minha boca sendo fisgado como se você tivesse me encontrado no meio de um oceano, escrevi quase sem parar sobre ser feita de lírios e não mais de água e sal.

Agora, não sei mais o que dizer. Te dou mil boa noites e bom dias, converso uma noite inteira. Ainda assim, de algum jeito esquisito, você me fez tão feliz que não preciso mais de palavras pra te contar sobre a gente. É concreto, não preciso colocar na tela do computador para soar mais real. É tangível, parte de mim, tá dentro do meu coração.

Como vou te explicar a plenitude do conforto e da companhia? O Monet de antes virou um Dalí: sou um relógio derretido, quero tantas horas quanto for possível em todas minhas madrugadas, quero derreter o material que compõe o tempo e gostar de você com toda intensidade do mundo, pelo máximo de segundos possíveis. Quero isso de perto, encaixando minhas costas frias no quente do seu peito; quero isso de longe, quando caio no sono depois de ter ouvido sua voz ecoando nos meus ouvidos. Te adoro mesmo dormindo.



Tem um documentário do Nick Cave, o cara do Nick Cave and the Bad Seeds, no qual ele fala que perde o interesse por tudo que entende por completo. O filme chama 20,000 Days on Earth.

“In the end, I am not interested in that which I fully understand” é a frase completa. Quando assisti ao filme a primeira vez achei genial. Pensei que se encaixava nos meus relacionamentos de forma perfeita.

Achei que estava resolvendo todos meus problemas voltando a ser sua amiga. Pensei, por alguns momentinhos, que quanto mais me aproximasse dos seus segredos, mais seria fácil me afastar emocionalmente e te oferecer só a minha amizade, em uma caixinha verde com bolinhas amarelas. Nada do gostar, que vem na caixinha rasgada e grudada com durex que já tá descascando.

Acreditava do fundo do meu coração. Você quebrou a armadilha. O mecanismo de defesa da minha cabeça não funcionou em nada — quanto mais e mais fundo você deixou eu voltar para dentro de você, mais e mais eu gostei do que compreendi.

Te adoro por completo.




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Sobre como flutuar no meio de um oceano bem maior do que você

juliannaisabele

De uma perspectiva externa, eu devia estar passando a mesma sensação de um daqueles senhores de 80 e tantos anos. Tudo o que eu tinha foi deslizando entre meus dedos, como se eu fosse parte da praia e meus bens fossem de areia também, minhas mãos apenas formando uma imagem breve, estruturada da maneira molenga com que os grãos se juntam.

Meu senso de razão, meu equilíbrio balanceado por um tanto de materialismo e outro tanto de altruísmo, minha responsabilidade. A lista é extensa: perdi tudo que achava me construir e só flutuei. Dizendo as mesmas frases e com as mesmas maneiras de sempre, mas sem meus pilares mais concretos para me segurarem no caso de dúvida. É como andar na rua sem carteira e ficar com medo de ser atropelado — o que sua mãe ia achar de você ser enterrada como indigente, hein? —, falta algo que não mora dentro do seu cérebro, mas é essencial.

Flutuei, boiando no oceano e vendo todo mundo trabalhando em cruzeiros. De alguma forma, um coletinho não me deixava gastar minhas energias. Não precisava sair debatendo a parte de dentro da minha cabeça por aí. Conforto nem começa a definir como é conseguir sentir o sol deixando seu nariz vermelho e a água deixando sua pele cada vez mais e mais salgada, sem ter que se preocupar em abrir os olhos ou lidar com ondas. É só flutuar.

Meu colete podia destruir e possuir todo meu universo. Precisava ter um reserva dentro de mim e não sabia.

G

Sobre a noite em que não consegui dormir

juliannaisabele

São 6:11 da manhã e ainda não dormi. Não faltou tentativa. Fechei os olhos com força e prometi que não ia mais abrir, mas esqueci o juramento e abri sem querer. Tentei pensar violentamente em situações e cenas dentro da minha cabeça, planejando respostas boas, espertas e inteligentes, esquecendo lógica e racionalidade no meio do discurso. Ainda que ficar imersa em um universo inteiro que faz sentido só dentro de você seja um dos maiores trunfos da consciência, não consegui me afundar tanto assim no travesseiro.

Optei pelo frio perto da janela da varanda, perto do chão molhado por uma chuva que eu não vi acontecer. De vez em quando, acho que meu maior defeito é querer que o mundo funcione de uma maneira que é totalmente injusta com todo mundo, menos comigo.

Eu só não consigo dormir em algumas noites específicas.

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Sobre o dia em que me peguei presa no nada

juliannaisabele

Tem um tipo de silêncio bem particular: vazio no meio do peito. Não importa a música nos fones de ouvido, não importa que a janela esteja aberta na madrugada. Não importa o vento da rua, os carros acelerados, apressados.

É um tipo de silêncio que materializado seria um quadro branco, pendurado em uma parede pintada num tom um pouco mais sujo. Uma área do museu que nunca pega os olhos de ninguém, mesmo os dos que mais apreciam tudo que há para apreciar em qualquer lugar.

Não há nenhum resquício de vida, de ar. Todo o mundo costuma dizer que a calmaria é sinal de que algo muito barulhento está logo ali, virando a esquina, em ritmo vagaroso, mas constante.

Quando seu peito se torna tão quieto assim o que sobra é só o pânico da ansiedade em busca da próxima trovoada. De alguma forma, turbilhões são mais tranquilos do que ficar preso dentro de um sem fim de nada. Absolutamente nada.

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Sobre uma vez em que me apaixonei

juliannaisabele

1. Devia fechar minhas portas/manter o coração aberto como uma igreja. Pedir desculpa pelo excesso de falta que você me faz/não me arrepender das torrentes de mensagens detalhando a respiração pesada e densa quando lembro de você. Ser um tantinho mais racional e indiferente/optar pela honestidade brutal de te contar que a vida dói, machuca e faz casquinha no peito quando você tá longe. Se te adoro de outro estado, 4 horas da manhã, guardo a sensação dentro da cabeça e sinto na pele/solto o fôlego de uma vez ao te descrever como a vida é mais vida por ter te conhecido. Tomar doses de paciência, cuidadosamente, não ser esbaforida/não ligar nem ao menos um pouquinho em esperar você acordar para te contar o quanto te adoro.Te adoro dormindo também.

Acordo antes da madrugada só para te contar como meu corpo vibra de saber que tudo se encaixa/sem pretensão, não de mim, nunca/você quer um pouco de café, você pode por favor me beijar?/Aqui estão minhas mãos, essa é minha boca, é tudo seu.

2. 16 minutos pra te acordar.

“Tá tudo bem contigo?”

O clima constantemente estranho, esquisito, parece cheio de musgo, caso fosse objetificado, seria um portão velho e enferrujado. Seu teclado é esquisito, não sei os acentos. Soa como quando pego na sua mão e olho bem dentro de você. Tá tudo bem? E eu acabei de apertar shift e seis pra fazer um acento circunflexo — aposto que fiz errado.

13 minutos pra te acordar e ainda não descobri como te explicar bem detalhadamente, nas minúcias, nos pormenores. Cada trava oxidada, cada partezinha coberta por um pequeno universo verde, por uma selva.

Faltam 11 minutos pra te acordar, ir te encher de beijo, pedir pra você ler o computador. Não vou ter tempo de revisar — nem vou querer, inclusive. Assim como abrir seu cerco com tons de ferrugem e floresta me emociona, é muito mais legal descobrir qualquer tropeço com um tanto de adrenalina. Será que você vai entender?

9 minutos e quero me apressar. Tem uma fúria dentro de mim, uma saudade que não consigo exteriorizar quando tô sentada e te fazendo graça. Adoro sua risadinha, não me culpa. Só consigo demonstrar direito assim, por extenso, com todas as letras saindo na ordem em que eu as penso, sem gaguejar, sem me distrair em te beijar apertando sua nunca contra meu rosto e sentindo o ar quente das suas narinas.

“Você tá feliz aqui? Jura?”

Juro tanto, tanto. Juro de pé junto. Juro a cada vez que posso acordar e sentir algo esquisito, um desconforto, um monte de marca na minha pele que seu cotovelo num lugar esquisito causou durante o sono. Não quero mais dormir com a pele sem marca. Não gosto mais da falta de bom dia e dos meus dedos quando distantes dos seus.

Os últimos 5 minutos. Decidi guardar pros esforços de te explicar o quanto tá ótimo com você:

Sou toda lírios quando encosta em mim. Sou toda vapor quentinho de chá quando me abraça bem apertado e sussurra no meu ouvido. Sinto meus ossos como que feitos de geleia quando aperta meus pulsos e olha pra mim no meio da conversa, frisando que tudo, tudo isso, o mundo inteiro, as ruas, o sol, a chuva, cada pintinha na pele, fosse uma obra de arte sua pra mim.

Você pintou meu mundo todo com cores novas. Variações que não sabia que existiam dentro de mim. Você enfiou a mão na minha garganta e arrancou meu coração pra usar de paleta. Não tem lugar melhor para ele ficar do que nas suas mãos.

E é assim que me sinto perto de você,

3. Esses dias, peguei um livro que tava guardadinho na estante, juntando poeira. Era Gatsby. Me arrependi muito de não ter tido fôlego pra ler antes. Olha só:

“I hope she’ll be a fool — that’s the best thing a girl can be in this world, a beautiful little fool”.

Recentemente, tenho me sinto bem boboca. Acordo penosamente de manhã, é verdade, mas sempre por ficar enrolando enquanto imagino seu corpo grudadinho no meu, sua cabeça encostada com pesar no meu ombro, alguma parte do meu corpo dormente, meus pés entre suas pernas, o quentinho da sua respiração, o ritmo do seu peito, sua mão entrelaçada na minha, prova física de que quero enraizar minha alma toda na sua. O ponto é que, agora, abro a janela na hora de me arrumar. Nem gosto de sol, muito menos acordo melhor com a presença de luz na minha cara, mas tenho vontade de sentir uma brisa no rosto. De deixar o quarto limpo — vai que você aparece de surpresa uma semana antes e o quarto tá uma bagunça?

Quero comprar velas pra acender de noite. Quero ouvir música todo dia antes de dormir. Quero aprender a fazer arroz. Deixo um despertador no celular pra tomar chá no meio da tarde e parar um tantinho o trabalho pra desconcentrar. Desconcentrar sempre significa você.

Você me deixa boba.

Fico simultaneamente cheia de vida dentro de mim por estar no meio de um turbilhão de sorriso e carinhos, ao passo em que me encontro perdida quando deito a cabeça e não tem você. A parte legal é que sou tão boba, mas tão boba, que ainda assim fico sorrindo. Do mesmo jeito que você apareceu inesperadamente pra mim, vai que o tempo passa rapidinho e a semana de você chegar surja aqui na minha frente, inesperada, trazendo a pressa de achar um vestido bonito e a ânsia de subir na ponta do pé pra ganhar um beijo?

4. Não necessariamente por ser possessiva, tristonha, apegada ou por qualquer outro dos problemas atuais de relacionamentos, mas, aos meus olhos, você brilha; não importa quem esteja perto, você me atrai como meu polo contrário.

Ninguém mais sabe. Existe um mundo entre a gente. É uma dimensão, um multiverso; permeia só nós e ninguém mais tem a habilidade de perceber. Um mundo secreto na longitude dos raios que emanam do seu polo para o meu.

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Sobre o meu obituário

juliannaisabele

Se você não se espanta com mais nada que a vida tem a oferecer, tente deixar de ceticismo. Considere fazer isso por Julianna Isabele L. De Souza, que se foi no dia 24/10 de 2092 —amada por mim, um filho esforçado, quatro netos adorados e três bisnetos ainda em fase de crescimento.

Durante seus exatos 100 anos, algo a ser passado pelos ensinamentos da minha mãe foi a importância da batalha contra incredulidade em prol de uma felicidade mais ampla. Conviver com amor jorrando por todos seus poros ao ser colocada no mundo no berço de uma família mais família que todas as outras ajudou a agilizar o processo, mas a guerra contra o negativismo sempre foi a constante a ser derrotada.

Dos ensinamentos: divida sua cama com um cachorro. Anote suas lembranças mais queridas em papéis para que ninguém mais possa ver. Não esqueça do obrigado e do por favor, não importa o quão triste você esteja. Use os arcaicos emails para se desejar força quando o mundo parecer mundo demais e pesar em seus ossos. Chore sempre que for preciso. chore pensando na eternidade, tanto na que já foi quanto na que vai ser.

Lembre-se: sempre que você amar alguém, você continua existindo para sempre. É assim que Julianna ainda ecoa; por meio do que é escrito agora e já foi escrito antes, por meio das palavras dela, por meio das minhas próprias.

Lembre-se que a ansiedade é violenta somente na sua própria cabeça e tudo ao redor do seu esperar foge da realidade; os outros pedem suco e conversam, não esperam, o que está no seu ponto de vista são apenas seus neurônios. Você pode estar respirando carvão e sentir seu sangue pingar — mesmo que seus olhos te digam que não há machucado algum. A sensação é proveniente da química do seu cérebro, não perca sua paz por isso.

Hoje em dia as crianças adoram usar colares com cristais feitos de açúcar e água quente. O resultado é um cordão composto por aglomerados de vidrinhos transparentes. Demora uma semana para ficar pronto.

Um pensamento feliz pode demorar uma vida inteira para se solidificar. Se você não desistir, você não é fraco. Você lutou a vida inteira é um exemplo — para quem te ama e para o universo.

De um filho para uma super-heroína.