Celina não parava de falar sobre como o misto de rosa com dourado seria um resgate rococó, passando longe de parecer brega ou decadente. Marcela, na outra ponta da linha, não podia desligar o telefone mesmo com a exaustão causada pela conversa — Celina era uma das últimas clientes.
A senhora de idade seguia falando sobre rendas e espelhos, sobre um quadro de uma garotinha de vestido rosa em um balanço que escondia segredos românticos e infiéis, falava sobre recriar a aura da tal obra de arte usando truques de luz para esconder imperfeições no gesso do teto rebaixado. Era quase um sacrilégio pensar de forma mesquinha em tempos de necessidade, mas Marcela sempre se perguntava qual era o ponto exato do cérebro de Celina em que os neurônios começam a se misturar da forma errada, nutrindo o restante das conexões com pequenas alucinações.
A verba disponibilizada esporadicamente para as grandiosas mudanças de ambiente da sala de estar do sobrado de Celina chegavam, no máximo, aos R$ 400. No geral, comprar uma moldura nova — reta, fina, gordinha, moderna, antiquada, rebuscada, simples — , um tapete usado — escuro, claro, felpudo, simples, desenhado, persa — e modificar o local original dos móveis já era o bastante. Dependia do humor da cliente.
Junto de outro punhado de figurões exóticos, como a rentável viúva de 23 anos que insistia em trocar o feng-shui da suíte principal todos os meses e o dentista com TOC (esculturas douradas nas temporadas de calor e peças de prata nas temporadas de frio, sem nunca repetir e sem saber que Marcela acabava achando que o gato em forma abstrata poderia fazer uma aparição ano sim ano não, já que ele era tão fofinho), Celina representava um nó com a realidade.
Se Marcela não pudesse mais trabalhar em seu pequeno e minimalista escritório, ela se descolaria da vida tal como um adesivo. Não seria de modo carinhoso, com água, sabão, esforço e um tanto de reflexão pelo passado. Seria com solvente: tomando cuidado para não respingar em mais ninguém e chegando ao fim tão rápido quanto o processo de colagem.
O mar da solidão conseguia ligar as duas de forma estranha: a família de sua mais antiga e menos estimada cliente era inexistente, Celina era uma náufraga, e Marcela tinha uma extensa lista de parentes e amigos, mas se sentia tão isolada quanto um beta preso dentro de um saquinho plástico.
De alguma forma, havia um certo senso moral em ouvir todo o discurso da insone senhora de 78 anos sobre ciclos artísticos. Era como se, ao menos durante os 40 minutos da conversa, o pequeno local de trabalho com piso de jatobá e parede de tijolo aparente parecesse ainda maior. Na luz do dia, quando o telefone não toca e os livros de referência se transformam em GIFs de gatinhos, o ambiente soa esmagador.
Por alguns instantes, Marcela se via na pele dos exaustos trabalhadores, tendo que atender uma exigente cliente no meio da noite. Seu business se mostrava frutífero: era preciso fazer um grande brainstorm, retirar as pastas com várias amostras diferentes de tecidos do armário e, sendo assim, seria necessário pegar a escadinha para alcançá-las. Ao menos por um tempinho, olha só, era como se tudo estivesse nos trilhos e o saquinho plástico no qual vivia se transformava em um vasto oceano.
Celina desligou, deixou uma visitinha marcada para a semana que vem, com chá, bolo de fubá e cafezinho. Marcela lembrou do que sua mãe havia dito quando o escritório foi inaugurado há 8 anos. A terceira gaveta da mesa servia de casa para uma garrafa de Jim Beam e um único copo de vidro, sempre lavado na pia do banheiro. Não havia o que ser guardado nos outros cinco gaveteiros e não haviam olhos para investigar o nada que neles era escondido.
Ainda assim, a terceira gaveta, a única com tranca, era o refúgio para quando a mãe de Marcela repetia, dentro da cabeça da filha, que ela não tinha apreço ou empenho pela própria família. Uma verdade horrorosa ainda é uma verdade, mesmo quando acompanhada de uísque sem gelo e um tanto de concentração na namoradeira antiga de Celina. Pátina funcionaria, talvez?
Era hora de voltar para casa. Depois de três copos e rabiscos muito mais agressivos do que a leveza do rococó exigia, já era mais tarde que o esperado. As ruas vazias e a caminhada solitária faziam o caminho de volta para o apartamento ser imponente — compartilhado somente pelos mutualmente esforçados. Muito trabalho, pensavam. A vida segue até ficar boa.
Marcela levantou da cadeira com seu senso alcoolizado de dever cumprido e começou seu ritual: checou mais uma vez a caixa de email e deixou a promoção de sapatos marcada como não lida, desligou o computador, pegou suas chaves na tigela ao lado do cabideiro, se enrolou no cachecol, colocou seu grosso casaco. Era um teatro, parecia que havia uma pressa necessária para chegar a algum lugar importante. Saiu pela porta com passos decisivos e cansaço nos olhos. Os desenhos espalhados na mesa e o copo de uísque ao lado dos papéis ficaram sozinhos no escuro, ecoando o que Marcela desejava para todos os seus dias: trabalho o bastante para sentir os ossos sendo esmagados, até esquecer das verdades horrorosas.
*
Caminhou tentando retirar bruscamente a esperança de seu coração, tentou separar o esperar do romantismo, se sentiu tirando espinha de um peixe usando óculos de visão noturna durante a tentativa.
De sobrancelha franzida e com os olhos fixos nos próprios pés, Marcela sentiu alguém trombando em seu ombro e a alça de sua bolsa deslizando, levando os pequenos pertences para o chão pós-molhado de chuva.
O cartão de ônibus colado com fita isolante, a identidade velha e com plástico sujo, o fone de ouvido enroladinho, o celular virado para baixo, cinco reais amassados e cinquenta centavos sujos, uma garrafinha de água velha. Marcela viu a mão do velhinho que havia esbarrado nela juntando tudo de uma vez e só conseguia pensar se água envelhecia.
O sujeito entregou o inventário minúsculo e pessoal, foi prestativo, educado, sorriu e seguiu pedindo desculpas, comentando ora sobre a falta de atenção causada pelos remédios, ora sobre parentes ainda mais idosos do que ele. Não fez contato visual, ainda que Marcela continuasse como uma estátua, com o ombro inclinado para o local em que havia sentido o golpe, olhos fixos no chão — na nuca do senhorzinho. Ele foi indo embora enquanto terminava o discurso do jeito que os idosos adoram fazer: falando sozinho.
Marcela ficou parada segurando a bolsa e percebeu a falta do celular só quando já seria esquisito demais sair correndo para chamar um velho de ladrão. O coração afundou no peito tão rápido quanto o desespero se esvaiu: entrou em pânico pelos contatos que perdeu, ficou chateada por lembrar que não havia nenhum número importante na agenda. O choro veio na garganta e deixou o rosto quente com a memória de conversas confortáveis, mas a última tinha sido há um ano, com um ex-namorado, e o certo, na verdade, seria apagar todo o histórico de uma vez só.
Um elefante sentou no peito de Marcela enquanto ela ponderava voltar para casa ou continuar estática no meio da rua, o frio perfurando a pele com minúsculas faquinhas feitas de vento.
Decidiu voltar para seu apartamento devagarinho, com as bochechas queimando as lágrimas que já secavam. Ouviu uma voz grossa, uma voz de quem fumou cigarros demais e pediu desculpas de menos: “Credo, quanto desespero… Não precisa de tudo isso, toma de volta”.